Um transformador explodiu em Sorriso (MT) no dia 28 de setembro de 2026. Uma pessoa morreu. O Ministério Público instaurou procedimento para apurar falhas na manutenção e operação dos equipamentos, e a Energisa foi notificada a prestar esclarecimentos técnicos. O caso virou investigação oficial. E a pergunta que todo gestor de facilities deveria fazer agora é simples: o que está acontecendo com a infraestrutura elétrica do meu próprio edifício?
Manutenção preventiva elétrica não é custo, é barreira contra o irreversível
Existe um vício antigo na gestão de ativos elétricos em empresas e condomínios comerciais. A manutenção só é lembrada quando algo para de funcionar. Ou pior, quando algo explode.
O acidente em Sorriso não foi uma fatalidade abstrata. Foi o resultado visível de um processo invisível, o desgaste técnico não monitorado de um equipamento sob pressão contínua. Transformadores, quadros de distribuição, sistemas de aterramento e cabos de alta tensão não avisam antes de falhar. Eles simplesmente falham.
Para gestores de facilities e síndicos de edifícios comerciais, esse evento precisa funcionar como um sinal de alerta concreto. Não porque a Energisa seja a responsável pela sua subestação interna. Mas porque a lógica do acidente é a mesma: equipamento sem histórico de manutenção preventiva elétrica adequada, operando além do que deveria, sem supervisão técnica ativa.
A diferença entre o que aconteceu em Mato Grosso e o que pode acontecer no seu prédio é menor do que parece.
O que os bastidores de um acidente elétrico revelam sobre gestão de risco
Quando o Ministério Público notifica uma concessionária para prestar esclarecimentos técnicos sobre manutenção e operação de equipamentos, o que está sendo questionado não é apenas o acidente em si. É o processo que levou até ele.
Na prática, as investigações desse tipo buscam responder perguntas como:
Havia registro de inspeções periódicas no equipamento? Existia um plano de manutenção documentado? Quem assinou tecnicamente a operação do sistema? Havia laudos de conformidade atualizados?
Essas mesmas perguntas podem ser feitas sobre qualquer subestação de média tensão instalada em um edifício corporativo ou condomínio empresarial. E em muitos casos, as respostas seriam constrangedoras.
O problema do "está funcionando, então está bem"
Gestores experientes conhecem esse raciocínio. O sistema elétrico está operando normalmente, não houve reclamações, então não há urgência. Essa lógica ignora um fato técnico básico: equipamentos elétricos deterioram silenciosamente. Conexões afrouxam. Isolamentos envelhecem. Temperaturas de operação sobem gradualmente. Nada disso é visível sem inspeção técnica.
Um termômetro visual não detecta ponto quente em barramento. Um zelador bem-intencionado não substitui um engenheiro eletricista com experiência em subestações. E um contrato de manutenção barato que só cobre corretiva não protege ninguém quando o sinistro acontece.
Responsabilidade técnica e responsabilidade civil: dois lados do mesmo problema
No caso de Sorriso, a investigação do MP apura responsabilidade técnica da concessionária. Mas em edifícios privados, a responsabilidade recai diretamente sobre o síndico ou o gestor de facilities responsável pelo ativo.
Se um transformador interno falha e causa dano a pessoas ou patrimônio, a pergunta jurídica é imediata: havia ART registrada? Havia laudo técnico recente? Havia programa de manutenção preventiva documentado e executado?
Sem isso, a exposição é total. Não há seguro que cubra negligência técnica comprovada. Não há defesa jurídica sólida sem histórico de manutenção.
O que um plano real de manutenção preventiva elétrica precisa ter
Não existe fórmula única, mas existe um conjunto mínimo de práticas que separa uma gestão técnica séria de uma gestão que torce para não ter problemas.
Inspeção termográfica periódica
A termografia identifica pontos de aquecimento anormal em painéis, conexões e equipamentos antes que eles se tornem falhas graves. É uma das ferramentas mais eficazes e ainda subutilizada em condomínios comerciais. Deveria ser feita pelo menos uma vez por ano, com laudo registrado.
Análise de óleo em transformadores
Transformadores a óleo precisam de análise dielétrica periódica. A qualidade do óleo isolante deteriora com o tempo e com a operação. Quando essa análise deixa de ser feita, o risco de falha catastrófica cresce de forma silenciosa. O acidente em Sorriso envolve exatamente esse tipo de equipamento.
Verificação de aterramento e proteções
Sistemas de aterramento precisam ser medidos periodicamente. Proteções como relés e disjuntores precisam ser testados. Esses itens raramente falham de forma visível antes de uma ocorrência grave. Por isso, precisam de verificação ativa, não reativa.
Laudos técnicos com ART
Todo serviço executado na infraestrutura elétrica de média ou alta tensão precisa de Anotação de Responsabilidade Técnica assinada por engenheiro habilitado. Isso não é burocracia. É a única forma de documentar que o serviço foi executado com competência técnica e dentro das normas vigentes.
A D Serviços opera com supervisão de engenheiros em todos os atendimentos técnicos de média complexidade, exatamente para garantir que esse ciclo, inspeção, execução, laudo e registro, seja cumprido de forma rastreável. Em uma rede nacional com atendimento emergencial 24 horas, esse padrão não é diferencial de marketing. É o que separa um atendimento que resolve de um que apenas aparece.
O que gestores precisam revisar agora, sem esperar o próximo acidente
O evento de Sorriso aconteceu com uma concessionária de grande porte, sob regulação da Aneel, com obrigação legal de manutenção documentada. Mesmo assim, houve falha. Mesmo assim, houve morte. Mesmo assim, houve investigação do Ministério Público.
Se isso acontece em um ambiente regulado, imagine o risco em edifícios onde a gestão técnica depende de contratos terceirizados sem critério, de manutenção corretiva como regra e de laudos desatualizados arquivados apenas para "ter o papel".
Alguns pontos para revisão imediata:
Quando foi a última inspeção termográfica do seu quadro geral e subestação? Existe laudo técnico com ART dos últimos 12 meses para os transformadores internos? O contrato de manutenção elétrica cobre inspeção preventiva ou apenas atendimento corretivo? Há registro formal de todas as ocorrências elétricas dos últimos 24 meses? O engenheiro responsável pelo sistema está acessível e com o CREA em dia?
Se alguma dessas respostas for "não sei" ou "acho que sim", o risco já está instalado. Só não virou notícia ainda.
Para gestores que querem entender como a instabilidade da rede externa impacta diretamente a infraestrutura interna do seu edifício, vale a leitura de O adiamento da Aneel não é um alívio: como blindar seu condomínio contra a instabilidade da rede. O contexto regulatório atual torna esse debate ainda mais urgente.
Perguntas frequentes
Com que frequência devo realizar manutenção preventiva elétrica em um edifício comercial?
A frequência depende do porte da instalação e do tipo de equipamento, mas como referência geral: inspeção termográfica anual, análise de óleo em transformadores a cada 12 ou 24 meses conforme uso, e verificação de aterramento e proteções a cada 12 meses. Tudo com ART e laudo registrado.
Quem é responsável pela manutenção da subestação em um condomínio comercial?
A responsabilidade é do proprietário ou gestor do ativo, representado tecnicamente pelo síndico ou pelo gestor de facilities. A concessionária responde apenas pela rede pública. A partir do medidor, a responsabilidade é integralmente do condomínio ou empresa.
O que acontece se houver um acidente elétrico sem histórico de manutenção documentado?
A ausência de documentação técnica, laudos, ARTs e registros de manutenção configura negligência que pode ser usada como base para responsabilização civil e até criminal do responsável pelo imóvel. Seguros também podem recusar cobertura nesse cenário. A documentação não é apenas boa prática. É proteção jurídica real.
Por Diego Ferraz

