Uma ação judicial ajuizada por um vereador contra a Copel em Campo Mourão, no Paraná, jogou luz sobre um problema que síndicos e gestores de facilities conhecem bem: eletrodomésticos queimados, fornecimento instável e uma concessionária que demora para agir. O episódio, registrado em outubro de 2026 e noticiado pela Tribuna do Interior, não é caso isolado. É o retrato de uma rede que envelhece enquanto a demanda cresce. E o condomínio ou empresa que depende dessa rede sem nenhuma camada própria de proteção está sempre na fila dos prejudicados.
O que aconteceu em Campo Mourão revela um padrão conhecido
O vereador Márcio Berbet formalizou em juízo as reclamações de moradores sobre falhas recorrentes na rede elétrica da Copel na cidade. Os problemas relatados incluíam queima de eletrodomésticos e instabilidade no fornecimento mesmo em dias sem chuva, sem qualquer evento climático que justificasse as ocorrências.
O ponto mais relevante para quem gere um condomínio ou uma operação industrial é esse: sem chuva, sem tempestade, sem justificativa aparente. Só a rede deteriorada.
Isso significa que o argumento da "fatalidade climática" não se sustenta em boa parte das ocorrências. A falha tem origem em falta de investimentos em manutenção, como a própria ação judicial aponta.
Para síndicos e gestores de facilities, essa informação muda o cálculo de risco. Se a concessionária não mantém a rede, o impacto chega até a sua entrada de energia. O que você faz a partir daí é sua responsabilidade.
Manutenção preventiva elétrica: o que está dentro do seu controle
A concessionária cuida da rede até o ponto de entrega. A partir da entrada de energia do seu condomínio ou instalação, a responsabilidade é do gestor. Isso inclui o transformador, o quadro geral, os circuitos, as proteções e toda a infraestrutura interna.
Adotar manutenção preventiva elétrica não é precaução exagerada. É a única forma de garantir que, quando a rede da concessionária oscilar, sua instalação tenha condições de absorver o impacto sem colapsar.
O que uma rotina preventiva precisa contemplar
Não existe uma lista universal, mas existem pontos que aparecem em quase todas as ocorrências graves. Eles costumam ser negligenciados justamente porque "nunca deram problema antes".
Inspeção termográfica dos quadros elétricos. Identifica pontos de aquecimento antes de virarem falha real. Uma conexão frouxa aquecendo dentro de um quadro não aparece visualmente. Só aparece na câmera termográfica, ou no incêndio.
Verificação de aterramento. Aterramento degradado não protege equipamentos nem pessoas. É um dos itens mais ignorados em rotinas de manutenção predial.
Teste de dispositivos de proteção. Disjuntores e DRs envelhecem. Um DR que não dispara quando deveria não protege ninguém. O teste periódico é simples e barato. A falha descoberta tarde não é nenhum dos dois.
Análise de qualidade de energia. Tensão fora do padrão, harmônicos e variações de frequência destroem equipamentos aos poucos. O problema de Campo Mourão, com queima de eletrodomésticos, tem conexão direta com esse ponto. Medir a qualidade da energia que entra na sua instalação é o primeiro passo para decidir se você precisa de proteção adicional.
Revisão do SPDA. O sistema de proteção contra descargas atmosféricas precisa de inspeção periódica. Condutores oxidados ou conexões soltas anulam a proteção.
Periodicidade: o erro mais comum
Muitos gestores fazem a manutenção preventiva uma vez por ano e consideram o assunto resolvido. Para instalações com alta demanda ou infraestrutura crítica, isso é insuficiente. A frequência correta depende do perfil da instalação, da idade do sistema e do histórico de ocorrências.
Um condomínio residencial de médio porte tem necessidades diferentes de um hospital, de um shopping ou de uma fábrica. Tratar todos com o mesmo ciclo anual é uma decisão de custo que pode sair muito mais cara no final.
O laudo técnico como argumento jurídico e ferramenta de gestão
A ação movida pelo vereador Berbet tem um componente que interessa diretamente a síndicos: a necessidade de documentar os prejuízos e estabelecer nexo causal com a falha da concessionária. Para isso, laudo técnico não é opcional. É o documento que separa um pedido de ressarcimento de uma reclamação sem respaldo.
Quando há queima de equipamentos por variação de tensão, o síndico precisa de documentação técnica que demonstre o evento, o impacto e a relação entre os dois. Sem isso, o pedido de indenização à concessionária não avança.
Mas o laudo cumpre outra função além da judicial. Ele registra o estado da instalação em determinado momento. Isso protege o síndico de responsabilizações futuras. Se uma falha elétrica causar dano a um condômino e houver um laudo recente atestando que a instalação estava dentro dos padrões, o síndico tem um argumento concreto. Se não houver laudo, a ausência de documentação fala por si.
A D Serviços oferece laudos técnicos com assinatura de engenheiro responsável, o que dá validade formal ao documento para fins de defesa jurídica, processos administrativos junto às concessionárias e registros de conformidade. É um ponto de atenção para gestores que ainda tratam laudo como burocracia, e não como proteção.
Se o tema dos apagões e das consequências para condomínios e empresas é novo para você, vale a leitura de A conta da negligência: por que o apagão da Enel é um aviso final para o seu condomínio ou empresa. O padrão de falhas que apareceu em Campo Mourão com a Copel não é exclusividade de uma única concessionária.
O que o síndico pode fazer agora, sem esperar a concessionária
Aguardar que a concessionária resolva os problemas de rede é uma estratégia de alto risco. A ação judicial em Campo Mourão vai tramitar por meses ou anos. Nesse período, a rede continua com os mesmos problemas e os moradores continuam expostos.
O síndico tem instrumentos próprios para reduzir esse risco. Não todos os riscos, mas os que estão dentro da sua governança.
Registre todas as ocorrências. Data, horário, natureza do problema, equipamentos afetados. Esse histórico tem valor documental e ajuda a identificar padrões que justificam uma ação junto à concessionária ou a instalação de proteções adicionais.
Formalize os chamados à concessionária por escrito. Reclamação por telefone não deixa rastro. Protocolo formal, sim. Em caso de ação judicial ou processo administrativo, o histórico de chamados formalizados demonstra que o gestor agiu.
Avalie a instalação de nobreaks e estabilizadores em pontos críticos. Para infraestrutura de segurança, elevadores, sistemas de incêndio e servidores de gestão predial, a proteção local complementa o que a rede externa não garante.
Contrate manutenção preventiva com empresa que emita relatório técnico. Não basta fazer a manutenção. O relatório documentado é o que comprova que ela foi feita, com quais achados e quais intervenções foram realizadas.
Solicite um diagnóstico de qualidade de energia. Se sua região tem histórico de oscilações como o relatado em Campo Mourão, medir o que entra na sua instalação é o passo anterior a qualquer decisão de proteção. Você não pode proteger o que não consegue medir.
Perguntas frequentes
A manutenção preventiva elétrica é obrigatória para condomínios?
A NBR 5410 e as normas regulamentadoras estabelecem requisitos para instalações elétricas em edificações. A manutenção periódica é exigida para manter a conformidade da instalação. Além das normas técnicas, convenções coletivas de trabalho em alguns estados e legislações municipais específicas podem impor obrigações adicionais. Do ponto de vista prático, a ausência de manutenção documentada expõe o síndico a responsabilidade civil em caso de acidente ou dano.
Se um equipamento queimar por falha da concessionária, quem paga?
A concessionária pode ser responsabilizada por danos causados por variações de tensão fora dos padrões estabelecidos pela Aneel. O processo envolve comunicar a ocorrência à concessionária dentro do prazo, apresentar documentação técnica que comprove o nexo causal e, se necessário, acionar Procon ou Aneel. Ter um laudo técnico e histórico de chamados formalizados aumenta significativamente as chances de ressarcimento.
Com que frequência devo contratar manutenção preventiva elétrica no meu condomínio?
Não existe resposta única. Instalações com mais de 15 anos, condomínios com alta densidade de equipamentos ou histórico de falhas recorrentes demandam ciclos mais curtos, em geral semestrais. Para instalações mais novas e sem histórico de problemas, o ciclo anual é um ponto de partida razoável, mas deve ser reavaliado periodicamente com base nos relatórios de cada inspeção.
Por Marcelo Campos

