Uma decisão judicial jogou luz sobre algo que técnicos de campo já sabiam há anos. Em 09 de setembro de 2026, a 31ª Vara Cível de São Paulo condenou a Enel por falhas graves na resposta a um apagão prolongado. A nota técnica da ANEEL que embasou a sentença apontou três problemas concretos: falta de veículos adequados para deslocamento das equipes, redução drástica de pessoal durante o período noturno e envio de técnicos sem qualificação para executar manobras de subestação em emergência. Esse último ponto é o que mais interessa a quem trabalha na ponta.
O que a nota técnica da ANEEL revelou sobre as equipes em campo
Não foi uma falha de equipamento que gerou a condenação. Foi falha de processo e de gente.
A ANEEL identificou que técnicos foram enviados para situações que exigiam qualificação específica em manobras de média tensão e operação de subestações, sem que esses profissionais tivessem o treinamento adequado para aquele tipo de ocorrência. Em um apagão de grande escala, isso não é detalhe. É o ponto onde tudo pode desandar.
Quando a rede fica instável e a concessionária demora a restabelecer o fornecimento, os operadores e eletricistas prediais passam a ser a última linha de defesa dos ativos internos. Transformadores de isolamento, quadros de distribuição, sistemas de automação e grupos geradores ficam todos sob pressão. E a decisão de manobrar ou não manobrar, nesse momento, precisa ser tomada por quem entende o que está em jogo.
Manobra de subestação em emergência: o que realmente acontece nos bastidores
A expressão "manobra de subestação em emergência" soa técnica e distante para quem não está na operação. Para quem está, ela representa uma sequência de decisões em que um erro pode queimar transformador, travar automação ou criar um risco de arco elétrico com consequências graves para pessoas e equipamentos.
A pressão do tempo e a tentação de improvisar
Durante um apagão prolongado, a pressão sobre a equipe interna aumenta a cada hora. O gestor do prédio cobra. O inquilino cobra. A diretoria cobra. Nesse cenário, técnicos sem experiência em manobras de média tensão ficam em uma posição difícil: fazer algo que não sabem direito ou esperar uma concessionária que não está chegando.
O improviso, nessa situação, costuma sair caro. Muito caro.
Religamentos manuais feitos fora de sequência podem submeter o transformador a uma corrente de inrush fora do previsto. A energização precipitada de cargas sem verificar o estado da rede a montante pode danificar equipamentos de automação que dependem de rampa controlada de tensão. São situações que técnicos experientes reconhecem de imediato. Técnicos sem essa vivência, não.
O papel do engenheiro de supervisão nesse momento
O que diferencia uma equipe que atravessa um apagão sem perdas de uma que sai com transformador queimado e sistema de automação travado não é só o treinamento individual. É a presença de um ponto de decisão técnica qualificada, alguém que orienta a sequência correta de manobras, avalia o estado dos equipamentos antes de qualquer religamento e documenta tudo para fins de responsabilidade e seguro.
Esse papel, em muitos contratos de facilities e operação predial, fica vago. Não está claro quem autoriza a manobra. Não está claro quem assume a responsabilidade técnica. E quando o problema aparece, aparecem também as disputas sobre quem deveria ter feito o quê.
A D Serviços estrutura exatamente esse ponto nos contratos de atendimento técnico emergencial 24h: engenheiro supervisor disponível para orientação remota ou presencial durante ocorrências críticas, com registro de todas as decisões tomadas no portal de chamados. Não é burocracia. É o que protege o técnico, o gestor e o ativo.
O que o caso Enel ensina para quem opera instalações de média e baixa tensão
A condenação da Enel não muda a realidade das instalações privadas diretamente. Mas ela documenta, com peso judicial, algo que a área técnica já discutia em silêncio: enviar alguém sem qualificação para uma situação de emergência elétrica não é solução. É criação de um segundo problema sobre o primeiro.
Para operadores prediais, síndicos técnicos e equipes de facilities, o paralelo é direto. Quando a concessionária falha, a instalação privada precisa se sustentar. E se sustentar com segurança exige protocolo, qualificação e cadeia de decisão clara.
Três pontos que a nota técnica da ANEEL coloca em perspectiva
Primeiro ponto. Redução de equipe noturna foi apontada como fator de falha. No contexto predial, isso se traduz na pergunta: quem está de plantão às 2h da manhã quando o sistema de distribuição interna perde uma fase? Existe alguém qualificado ou existe apenas um vigilante com um número de telefone desatualizado?
Segundo ponto. Falta de veículos adequados atrasou o atendimento da concessionária. No contexto de facilities, isso se traduz em: o técnico que vai atender a emergência tem os equipamentos de proteção individual corretos para trabalho em média tensão? Tem os instrumentos de medição? Tem acesso ao diagrama unifilar atualizado?
Terceiro ponto. Técnicos sem qualificação foram enviados para manobras complexas. Esse é o ponto mais direto. Qualificação não é só ter carteira de eletricista. É ter treinado especificamente para manobras em subestações, ter vivência em situações de emergência e saber quando parar e chamar alguém com mais experiência.
Para aprofundar o entendimento sobre os impactos financeiros e legais desse tipo de negligência técnica, vale ler A conta de R$ 837 milhões: o que a punição da Enel ensina sobre o risco de negligenciar a gestão técnica em 2026.
Protocolo mínimo para manobras durante apagão prolongado
Não existe protocolo universal, porque cada instalação tem suas especificidades. Mas existe um conjunto de práticas que técnicos experientes aplicam de forma consistente em situações de falta prolongada de energia da concessionária.
Antes de qualquer manobra
Verificar o estado do grupo gerador e confirmar se a transferência automática atuou corretamente ou se houve falha. Isolar as cargas críticas das não críticas. Confirmar com o diagrama unifilar em mãos qual é o estado esperado de cada chave e disjuntor antes de tocar em qualquer coisa.
Se o diagrama unifilar não está atualizado ou não está disponível, a manobra deve esperar. Simples assim.
Durante a espera pelo restabelecimento
Monitorar a temperatura do transformador se houver instrumentação disponível. Acompanhar o nível de combustível do gerador. Registrar horários de cada evento no sistema de chamados ou, na falta disso, em qualquer meio que produza evidência com timestamp.
Esse registro tem valor técnico imediato e valor legal potencial. Se o transformador queimar por causa de uma tensão anormal na rede da concessionária no momento do religamento, o registro é o que diferencia um pedido de ressarcimento com chances de êxito de uma briga sem documentação.
No momento do religamento da concessionária
Esse é o momento de maior risco de dano a equipamentos. A reenergização da rede pode vir com transitórios de tensão. O procedimento correto é manter as cargas sensíveis desligadas durante o religamento inicial, verificar a tensão e a frequência por alguns minutos antes de reconectar equipamentos críticos.
Inversores de frequência, CLPs, sistemas de automação predial e UPS com baterias enfraquecidas são os equipamentos mais vulneráveis nesse momento. Um técnico que já viu um inversor de frequência queimar por religamento precipitado não esquece. Quem ainda não viu, precisa conhecer o protocolo antes de enfrentar a situação.
Perguntas frequentes
O que caracteriza uma manobra de subestação em emergência?
É qualquer operação de chaveamento, transferência de carga ou religamento realizada em subestação de média ou baixa tensão fora das condições normais de operação, geralmente sob pressão de tempo, com a rede da concessionária instável ou indisponível. Exige qualificação específica, equipamentos de proteção adequados e, idealmente, supervisão de engenheiro responsável pelo sistema.
Quem é responsável pelos danos em equipamentos durante um apagão prolongado?
A responsabilidade depende da causa do dano. Se o dano ocorreu por transitório de tensão gerado pela rede da concessionária, existe base para reclamação com documentação adequada. Se o dano ocorreu por manobra incorreta realizada pela equipe interna, a responsabilidade recai sobre quem executou e quem autorizou. Por isso o registro de cada ação durante a ocorrência é indispensável.
Como saber se minha equipe está preparada para manobras em situações de emergência?
O teste mais simples é perguntar: existe um procedimento escrito e treinado para o caso de falta prolongada de energia? Se a resposta for não, ou se o procedimento existir mas ninguém souber onde está, a equipe não está preparada. Treinamento prático com simulação de falhas, atualização do diagrama unifilar e definição clara de quem autoriza cada manobra são os três pontos de partida para corrigir isso.
Por Rodrigo Sales

